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Marcia Tiburi: “a ameaça de extinção não deve ser descartada como um absurdo”

Marcia Tiburi: “a ameaça de extinção não deve ser descartada como um absurdo”

A filósofa reflete sobre o Covid-19, que pode endurecer ainda mais o capitalismo ou significar uma mudança de paradigma

PLENÁRIO DO TSE ESTA SEMANA. FOTO: ROBERTO JAYME/ASCOM-TSE

Particularmente, desejo dizer alguma coisa que possa ajudar as pessoas nesse momento difícil. Não há mais nada que possa ser feito para evitar a tragédia que irá se abater sobre o mundo e também o Brasil.

Coletivamente, estamos passando por um limiar, um limite que marca o início de algo novo, e tudo o que podemos fazer é tomar consciência, nos responsabilizar dentro de nossos próprios limites e exigir responsabilidade da parte de quem detém os poderes nos mais diversos âmbitos. Os riscos e limites estão claros em nível econômico, material, profissional, psicológico e até mesmo existencial. A ameaça de extinção não deve ser descartada como um absurdo.

Evidentemente, esse é um momento decisivo para uma crítica do neoliberalismo como fase avançada do capitalismo. Diante de problemas sérios como o que enfrentamos agora, o neoliberalismo demonstra sua fragilidade como projeto. Se o neoliberalismo piora o viver (em sentido econômico, social, cultural e nos demais âmbitos da vida) de muita gente –ele também se apresenta como inviável quando se trata de sobreviver em sentido biológico.

O capitalismo é biopolítico e tanatopolítico. Ele calcula quem deve viver e quem deve morrer e isso está cada vez mais evidente na estrutura do sistema. O acesso à saúde é uma prova disso

Ao ser ameaçado de extinção por um vírus, fica claro o caráter gregário, social e político do ser humano como um ser que se constitui em relação aos outros. A política como construção de relações saudáveis, e não como jogo de poder, se apresenta como a própria essência da condição humana. A antipolítica (ou política da destruição), baseada no ódio e na desagregação, na avareza e na falta de solidariedade, demonstra que não há futuro sem a política no seu melhor sentido. A solidariedade vem da consciência do comum que caracteriza essa política de que precisamos para viver e sobreviver. Que a solidariedade esteja sendo demonstrada pela China e por Cuba nesse momento, é um sinal de que a solidariedade vem dos comunistas. A sociedade que devemos construir se quisermos permanecer sobre a face da terra não pode prescindir da solidariedade.

Ao mesmo tempo, o cerne tanatopolítico, ou necropolítico do neoliberalismo, mostra sua fácies hipocrática nesse momento. Quando vemos certos líderes mundiais recuando da já naturalizada economia política do abandono e do “Estado mínimo”, que são típicas do neoliberalismo, e atuando na direção de um Estado de responsabilidade para com o povo, criamos certa esperança. Mas essa esperança é ilusória na medida em que sabemos que uma crise não passa de mais uma oportunidade de negócios para os neoliberais que vivem auto-iludidos em suas bolhas cheias de fantasias sobre um futuro maravilhoso sempre construído por seu egoísmo e narcisismo. Estejamos alertas, pois, passando a crise, é o próprio povo que, permanecendo vivo, terá que pagar o preço da catástrofe. O capitalismo é um fardo pesado demais e os donos do capital jamais o carregarão.

Se o neoliberalismo piora o viver (em sentido econômico, social, cultural e nos demais âmbitos da vida) de muita gente –ele também se apresenta como inviável quando se trata de sobreviver em sentido biológico

O capitalismo é biopolítico e tanatopolítico. Ele calcula quem deve viver e quem deve morrer e isso está cada vez mais evidente na estrutura do sistema. O acesso à saúde é uma prova disso. Portanto, aos que sobreviverem, considerando que o regime da morte também se compraz com a desgraça desse momento, saibam que não será fácil o que vem pela frente.

Dito de outro modo, o capitalismo de desastre se aproveitará para lucrar com a desgraça. Se sobrar alguma coisa depois desse momento infeliz, a chance de enfrentarmos um regime econômico ainda mais duro é imensa, pois não podemos nos iludir de que o capitalismo amenizará seu método violento contra corpos trabalhadores e de minorias políticas que ele transforma em seus súditos e objetos descartáveis a todo o momento e desde sua fundação. Portanto, é importante nesse momento, nos prepararmos para o pior e/ou para uma nova chance moldada em outro paradigma econômico, social, político e espiritual (quando me refiro a espírito quero dizer cultura, educação, ética), caso haja.

Além disso, não devemos deixar de lado que a imensa maioria da população nos mais diversos países está sob ameaça de morte. É natural que nos escandalizemos com a atitude de chefes de Estado como o brasileiro que, até o momento, age segundo a loucura e a destruição que foram transformadas em forma de governo no Brasil. Agora Bolsonaro acrescenta um projeto de extermínio do povo e admite fazer do seu próprio corpo o veículo da morte quando encontra pessoas e age sem os critérios de segurança sanitária da quarentena respeitada em todo o mundo.

O confinamento é um bom momento para entender e valorizar o que realmente importa, para exercitar o melhor de cada um para consigo mesmo e para com os outros: solidariedade, generosidade, gentileza, a vida sem exploração e longe do consumismo

É evidente que Bolsonaro é despreparado e perverso. É evidente que ele sempre foi assim, mesmo que muitos não quisessem acreditar, uns porque se identificaram com ele de modo sadomasoquista, outros porque se consideraram superiores a ele, imaginando manipulá-lo. Não é por acaso que a máscara que ele usava literalmente caiu em uma das entrevistas coletivas que ele deu ao lado de seu ministério de ineptos. O livro do mundo continua sendo escrito em linguagem cifrada, nos cabe aprender a ler.

O confinamento é um bom momento para entender e valorizar o que realmente importa, para exercitar o melhor de cada um para consigo mesmo e para com os outros: a solidariedade, a generosidade, a gentileza, a vida sem exploração e longe do consumismo, o reconhecimento dos que estão trabalhando para tentar conter o avanço da catástrofe, mas também a auto-reflexão, o diálogo e, sem dúvida, o sentido do viver-junto e da vida humana no planeta Terra que ela tem desprezado de modo narcísico e inconsequente.

Marcia Tiburi é professora de filosofia na Universidade Paris 8

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