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O QUE PENSAR DA VIDEOCASSETADA BOLSONARISTA?

Fernando Alves

Quando escreveu junto com seu companheiro de ideias, Engels, a Ideologia Alemã, Marx se propôs a debater com Bruno Bauer sobre a crítica filosófica de Feuerbach a Hegel, discutindo o conceito de ideologia, começando por definir que é a matéria que contamina a consciência, e não o contrário; ou seja, é a realidade das coisas que contagia os espíritos, sendo o pensamento do homem, portanto, um produto do seu trabalho, da realidade de suas condições no modo de produção. A grosso modo, um industrial, como membro da classe dominante e dono da fábrica, fabricaria, também, o pensamento dominante. Todo o trabalhador, por sua vez, teria, via de regra, mentalidade de industrial, mesmo se permanecesse trabalhador e nunca uma dia chegasse a se tornar um industrial. Caberia às classe dominantes exprimir suas ideias de dominação, passar para a consciência de todos que o espírito de uma sociedade seria o da classe que efetivamente domina, que realmente governa.

O populismo autoritário de extrema direita vive um caminho a parte, pois além de fabricar uma realidade, é constituído por uma classe que aspira ou detém o poder, trabalhando um conceito fabricado e ideológico de “povo”. Se Marx vivesse nos dias de hoje, estivesse na sua terra natal, Alemanha, e enquanto assistia pela TV ou no smartphone algum jogo da recém-reaberta temporada do campeonato alemão, durante a pandemia do coronavírus, fosse obrigado a ler o noticiário internacional, provavelmente ele exclamaria: “Scheisse!”, diante do aviltante vídeo, liberado pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, com imagens e áudio da reunião ministerial ocorrida em abril, entre o presidente brasileiro Jair Bolsonaro e seus ministros. Como se sabe, a gravação era uma disputada peça, entre acusação e defesa, de um inquérito instaurado para apurar se o presidente Bolsonaro interferiu ou não na Polícia Federal para defender a si próprio e seus filhos, e, assim, além de cometer crime de responsabilidade, teria também contribuído para a demissão do ex-superministro Sérgio Moro, que pediu demissão e saiu atirando, aludindo à citada reunião para justificar sua saída do cargo de ministro, por conta de uma indevida substituição do diretor-geral da PF.

O vídeo apresentado revela mais de duas horas de puro e mais ideológico bolsonarismo em sua mais frondosa raiz. É uma autêntica aula sobre a proposta de visão de mundo que um governante autoritário, seu clã e asseclas quer estabelecer como modelo de dominação para um país inteiro. Está lá, bem presente, o autoritarismo e egocentrismo centrados na figura do líder, com sua prepotência em querer subjugar e prender prefeitos e governadores; o belicismo, num culto às armas e na defesa do armamentismo como pretexto da desobediência a atos de poder público na gestão de uma pandemia, para a instauração de uma ditadura de direita sob os escombros da esquerda, por meio do incentivo a uma guerra civil; o menosprezo pelos demais poderes e instituições; o servilismo às beiras da humilhação aos interesses econômicos norte-americanos; o menoscabo pela proteção do meio ambiente em favor do desmatamento e do grande capital; o ódio direcionado aos adversários políticos com o emprego nada econômico de palavreado chulo, palavrões e insultos; a teoria conspiratória de que o comunismo estrangeiro, e, principalmente, o hostil gigante chinês é o principal responsável por um plano globalista de dominação; além da crença de um país formado somente por gente conservadora, religiosa e intolerante. Porém, talvez o mais grave detalhe, observado por milhões de brasileiros no vídeo divulgado à exaustão pelos meios de comunicação, foi o total e cabal descaso quanto à gestão da crise de uma pandemia que já deixou no Brasil mais de 20 mil mortos, tornando o país o segundo no mundo com o maior número de contágios da COVID-19, atrás apenas dos Estados Unidos.

Está tudo ali, no vídeo, exposto a olho nu, a se deparar com o caldeirão ideológico bolsonarista. Menos do que uma futura prova processual, que apenas apequena, um já encolhido Sérgio Moro, o vídeo da reunião ministerial demonstra, numa espécie de pay per view do extremismo, com sinal de acesso liberado pela Justiça, uma coleção de idiotices que mantém empatado um jogo polarizado, como bem se manifestou nas redes sociais a comentarista política da CNN e professora do curso de Direito da Mackenzie, Gabriela Prioli. O vídeo da reunião ministerial, menos do que comprometer o presidente, engaja ainda mais a militância fiel a ele, assim como delimita aqueles que o odeiam, bem como mantém o distanciamento do seu antigo eleitorado que se antes apenas o antipatizava, após a saída de Moro, agora lhe tem verdadeiro asco. Bolsonaro demonstrou ser um governante escravo de sua própria ideologia, um pseudo presidente, que finge governar pois está em campanha permanente por sua reeleição. Imerso no seu populismo, no vídeo apresentado, Bolsonaro e seus ministros pareciam viver numa outra realidade negacionista daquela que vivemos, num mundo paralelo, uma outra dimensão. No mundo perfeito do bolsonarismo, não existe Judiciário ou imprensa para atrapalhar, não existe distinção entre negros, brancos, indígenas, homens, mulheres, pois todos são apenas brasileiros, cristãos e conservadores de direita, vivendo numa família formada pelo casamento unicamente e biblicamente constituído de homens e mulheres, onde o comunismo diabólico, é um pesadelo distante diante de uma próspera democracia capitalista. Enfim, um Brasil de patriotas e moralistas, que podem se dar o direito de falar palavrão. O vídeo de Bolsonaro e seus ministros, sob a lógica do humorismo, diante de tanta toxicidade moral, muito mais pelos argumentos apresentados (se é que se pode chamar aquilo de argumentos), do que pelos palavrões, é uma piada pronta da nova direita protofascista, uma coleção de videocassetadas verbais de gente despreparada, descarada, ou, no mínimo, com muita desonestidade ética e intelectual.

Mas o vídeo do bolsonarismo em ação é também a apresentação visual do ressentimento aliado à perplexidade. Sim! Pois é de um ressentido ministro da Educação, Weintraub, da sua fala do quanto tem ojeriza a Brasília, adulando o seu líder e copiando sua fala inflamada, ao se referir de forma nada elogiosa aos Ministros do Supremo (que, na lógica dele, seriam todos presos), é que vemos que a ideologia, a reprodução nas consciências da realidade material, como diria Marx e Engels, é também a reprodução de uma consciência ressentida, de ojeriza ao outro. Outra grande pensadora, a filósofa Hanna Arendt, na sua célebre, As origens do totalitarismo, já dizia que o ressentimento é a base afetiva do totalitarismo, no momento que através dele a dominação ideológica totalitária vai se formando, criando redes de identidade, cooptando pessoas deslocadas, ressentidas das promessas não cumpridas de prosperidade da democracia liberal, da ausência de uma justa distribuição de renda do Estado social ou mesmo do medo e da insegurança diante da violência crescente do crime, da corrupção estatal e da violência urbana. Não foi à toa que o bolsonarismo surgiu e cresceu no Brasil, fazendo com que um até então anedótico deputado do baixo clero se tornasse chefe de Estado, governando sem sequer ter partido político ou base parlamentar definida, valendo-se quase que diariamente de uma massa autoritária, de adoradores cegos vestidos com a roupa da seleção canarinho de futebol, acampados e descumprindo uma quarentena, nas cercanias do Palácio do Planalto. São, muitos, nessa condição, os ressentidos dos tristemente findos anos de ouro do lulopetismo no poder, herdeiros de uma década perdida, num já longínquo começo de século onde os sonhos de igualdade, justiça social e desenvolvimento do boom das commodities foram substituídos pelo pesadelo dos escândalos de corrupção, crise e desaceleração econômica, que culminaram num golpe parlamentar,  de impeachment.

Mas, além do ressentimento, no vídeo da reunião ministerial há um pouco de perplexidade entre seus protagonistas. Sobre perplexidade, talvez o único e breve ministro que demonstra algum compromisso com a racionalidade e, por isso, aparenta o tempo inteiro no vídeo ter não apenas um olhar, mas a sensação de estar deslocado ali, numa sala repleta de cínicos ou psicopatas, foi o já demissionário ministro da saúde, Nelson Teich. Longe de ter o carisma e eloquência professoral de seu antecessor, Luiz Henrique Mandetta, Teich ainda consegue a proeza de ser o único a falar abertamente da pandemia, a se pronunciar como técnico, a argumentar, mesmo que timidamente, como ministro de Estado, e falar o que realmente era necessário falar em uma reunião. Talvez a única fala que se aproveite como minimamente republicana seja a dele, e um tapa na cara, diante da insensibilidade geral de um ministério que se comporta mais como uma gangue de desajustados do que propriamente a de gestores preocupados com uma pandemia. Pela sóbria fala de Teich, constatou-se que, se está ruim com a Covid, o pior ainda vai vir após a doença, quando a realidade dantesca da saúde brasileira vir realmente à tona com a pós-Covid e o sistema de saúde colapsado, sem leito algum. Talvez Moro seja o único dos outros ministros também com olhar perplexo, diante de tantos absurdos ditos numa reunião que, na prática, não serviu pra nada; mas de forma bem menos evidente e mais discreta, principalmente quando o presidente olhou diretamente para ele, ao falar que iria interferir na PF. Moro, acostumado a fazer suas já célebres caras de paisagem diante de perguntas inóspitas da imprensa, no vídeo revela um semblante que mistura perplexidade contida com insatisfação. Talvez, uma reação pouco diferente de Teich, pela experiência de mais de um ano do ex-juiz da Lava-jato junto com Bolsonaro e sua turma, o que levou a ser gato escaldado diante de tipos tão terrivelmente pitorescos. Perplexidade pode assumir um sentido sociológico, quando a constatação do absurdo pode gerar um desafio emancipatório. Em outros termos, aquele se encontra perplexo, diante de uma situação absurda tem dois caminhos a seguir: ou segue encarando o desafio, tentando se adequar ao que lhe é insano, buscando uma racionalidade, ou, como diz o jargão popular, “tira o time de campo”, busca a saída honrosa ou menos vergonhosa, ou seja, a demissão. Alternativa adotada tanto por Teich em menos de um mês no ministério e do outrora consagrado Moro, após passar quase metade de um governo dançando a contragosto a valsa bolsonarista.

Apesar da ojeriza que deve ter gerado o vídeo a muitas mentes sadias de uma tão doente (ou diria moribunda?) democracia brasileira, é preciso tirar lições do masoquismo de assistir as baixarias do bolsonarismo, muitas delas responsáveis diretas pela tragédia brasileira em uma pandemia. Muitos já sabiam, antes, no que consistia a ideologia bolsonarista, mas a revelação do vídeo da reunião ministerial pelo Supremo, mesmo que não faça arrefecer o ímpeto do “mito”, do “capitão” que governa (ou finge governar) a nau desgovernada verde e amarela, ao reproduzir doentiamente seus mantras autoritários para seus convertidos, pode servir, pelo menos, para divulgar a um número bem maior de brasileiros, até onde ideologia pode se confundir com loucura. Uma classe dominante pode dominar também com base na esquizofrenia, e é no delírio, na cisão de realidade, que a ideologia constrói sua própria realidade de classe. No caso do bolsonarismo, uma realidade doentia, que independente dos doentes da Covid-19, tende a se perpetuar por algum tempo no país, até que uma vacina democrática chamada Constituição, possa retornar a ser aplicada nas mentes alheias.

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