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SERÁ A NOVA RESISTÊNCIA? AS TORCIDAS DE FUTEBOL ANTIFASCISTAS ENFRENTANDO O BOLSONARISMO

Somos pela Democracia: torcidas juntas e misturadas contra o Fascismo

Somos pela Democracia: torcidas juntas e misturadas contra o Fascismo. (Fonte da imagem: Jornalistas Livres)

Fernando Alves

Em seu livro, Corpos em aliança e a política nas ruas:notas para uma teoria performativa da assembleia, a filósofa norte-americana Judith Butler estuda as manifestações políticas, com ênfase nos protestos e movimentos de rua, desenvolvendo a chamada teoria performativa da assembleia, onde a ação política não se traduz apenas no discurso, mas também na forma como os corpos, a assembleia de indivíduos se apresentam, tornam-se visíveis na multidão. Assim, a vestimenta, a máscara ou o uniforme também são uma forma de manifestação, assim como os cartazes e faixas. São formas de ação política, pois a performance, aquilo que os outros vestem ou aparecem, torna-os visíveis, distinguindo-se dos demais, e sua aparência também diz muito a respeito do que pensam e do que desejam nas relações e conflitos de poder político.
Num Brasil assolado pela pandemia do novo coronavírus, tornado o segundo maior país em número de contágios e o quarto no número de mortes pela doença, o vírus político do bolsonarismo apresenta-se como uma ideologia de extrema-direita que ultrapassou o debate eleitoral, e se transformou numa verdadeira doutrina de inspiração claramente fascista, copiando, quando não, a estética de Mussolini e seus camisas negras. Trata-se de um movimento apoiado tanto nos discursos pavorosos de seu líder como na performance de seus militantes. É o apego ao líder numa crença cega em sua missão de redentor da pátria, o desprezo pelos demais poderes e instituições políticas (especialmente o Judiciário), a violência de seus militantes direcionada contra a imprensa e seus adversários, o culto ao armamentismo e o militarismo com pedidos claros e ruidosos de intervenção do exército e retorno de uma ditadura numa espécie de autogolpe presidencial, que condensam o que há de pior na ação política e o que poderia se esperar de pior no meio de um sistema de saúde colapsado, diante de quase trinta mil mortos, em um país de aglomerações, em franca violação às regras de distanciamento social e que vive a tragédia de registrar mais de mil óbitos por dia de Covid-19.

Entretanto, ao invés de camisas negras, os neofascistas brasileiros do bolsonarismo vestem as cores brilhantes e singelas da bandeira nacional, num verde e amarelo eternizado no esporte, nas campanhas vitoriosas de um nostálgico país, pentacampeão de futebol. Desde as manifestações que culminaram com o impeachment da presidente Dilma Roussef, a camisa da seleção canarinho passou a ser marca registrada da extrema direita brasileira, um uniforme para lhe dar projeção e voz, como se a multidão de homens e mulheres (muitos deles sem máscaras de proteção), em tumultuados finais de semana em Brasília, fosse a imagem e semelhança do patriotismo apregoado por seu líder. Afinal, segundo o encerramento do ultra-ideológico discurso de posse do presidente brasileiro: “nossa bandeira jamais será vermelha”.

A professora Butler afirma em seus escritos que “povo” não é uma população definida, e, ao contrário, possui linhas de demarcação implícitas ou explícitas de acordo com a narrativa, com o discurso que entoam, na busca de hegemonia por certo grupo ou coletividade. No seu conceito deturpado de povo brasileiro, Bolsonaro parece querer demonstrar que são dignos de atenção e respeito apenas aqueles que aceitam sua liderança incontestável, nos 33% do eleitorado cristalizado nas últimas pesquisas de opinião que avalia positivamente seu governo, apesar de um número crescente de mais de 50% não mais o suportar ocupando a cadeira presidencial. Bolsonaristas de raiz (ou, se preferir, verdadeiros brasileiros segundo seu líder) são aqueles que vestem a camisa verde e amarela da seleção de futebol. Os demais, inclusive aqueles que defendem as medidas sensatas de governos estaduais na prevenção ao vírus, seriam comunistas, defensores da “gripezinha” chinesa e antipatriotas, inimigos dos empregos, que mereceriam o escárnio nacional.
É bem verdade que, nos momentos mais críticos da realidade brasileira, esporte e política, não obstante o bordão de que seriam assuntos não confessáveis em mesa de botequim, juntamente com religião, andaram de mãos dadas. Ao menos uma vez, no histórico movimento das Diretas Já, na década de 1980, a camisa verde e amarela usada pela seleção também representou movimentos cívicos pela defesa da democracia e fim da ditadura. Entretanto, foi essa mesma ditadura, desde um Vargas no Estado novo a recepcionar jogadores, até um governo Médici, em plena repressão militar, a convidar o craque Pelé, vestido com o uniforme do tricampeonato mundial, a visitar o palácio presidencial, que conjugou em tristes cores, ao som do hino “Pra frente um Brasil”, um país do futebol, que idolatrava seu rei, e ao mesmo tempo cometia diariamente a tortura e o assassinato de opositores, a censura à imprensa e a toda e qualquer liberdade de expressão. Isso sem contar o descalabro econômico, revelado anos depois com uma hiperinflação e o inchaço do Estado, por meio de estatais ineficientes, verdadeiros elefantes brancos criados na base da hipocrisia, ignorância e muita opressão; além de um sistema de saúde e previdência inexistente ou colapsado. Imagine se uma pandemia tivesse chegado naquela época e não hoje!
Eis que, no Brasil de hoje, o Brasil do coronavírus, no meio da farra verde e amarela, dos, no mínimo insensatos (porque não dizer parvos) manifestantes aglomerados nas ruas com a camisa da CBF, nas últimas seis semanas de convivência com a Covid, surge no espaço público outros coletivos a se avolumar nas vias das grandes cidades. Em urbes como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre, nas mesmas ruas outrora ocupadas quase que completamente por bolsonaristas em apoio ao seu líder com suas camisetas, aparecem manifestantes integrantes de torcidas organizadas de times de futebol, apresentando-se como antifascistas corintianos, palmeirenses e flamenguistas. Junto com o logotipo da resistência à extrema-direita iniciada décadas antes nos Estados Unidos do pós-guerra, militantes de diversas matizes políticas no campo progressista, torcedores de times de futebol, aliaram sua preferência política com afeição esportiva, transformando a camisa de equipes futebolísticas como autênticas símbolos de representação política e luta social.

Numa briga de performances, que ganhou destaques de um conflito urbano e violento real, fascistas e antifascistas se enfrentaram nas ruas neste domingo, data marcada por manifestações da militância de Bolsonaro contra o Supremo Tribunal Federal, e as diligências adotadas por sua maior persona non grata: o ministro Alexandre de Moraes. Em mensagem enviada aos demais ministros, o ministro decano da suprema corte, Celso de Mello, rendeu-se às evidências históricas, comparando as manifestações bolsonaristas com tochas, a reclamar do tribunal, a militantes da Alemanha nazista de Hitler, nos tempos conturbados da República de Weimar, como um prenúncio do que viria depois. Enquanto isso, em São Paulo, numa união inédita, as até então violentamente rivais torcidas do Corintians e do Palmeiras, uniram-se em manifestação no vão do MASP, contra Bolsonaro e em prol da democracia, acabando por ser vítimas da repressão policial, na eclosão de um conflito com furiosos manifestantes bolsonaristas. No meio da pancadaria, ainda houve tempo para que o presidente brasileiro imitasse seu colega norte-americano, Donald Trump, um entusiasta dos supremacistas brancos que também entraram em conflito, este final de semana, com militantes de movimentos contra o racismo, após o covarde assassinato do segurança negro, George Floyd, por um policial branco, em Minneapolis, afirmando que os grupos antifascistas deviam ser considerados organizações terroristas.

O certo é que os manifestantes antifascistas das torcidas organizadas, ao protestar politicamente contra os abusos autoritários do presidente, contrapondo-se a seus apoiadores, constituem-se num novo foco de resistência que saiu das telas de computadores, tablets e smartphones da guerra digital, e saíram às ruas, mesmo com uma pandemia à espreita e sob o risco de contaminação, assim como já fizeram os bolsonaristas desde que a COVID-19 aterrissou tristemente no território nacional. Diante de uma suposta insensatez de sair às ruas, ignorando o isolamento e contribuindo para o contágio, parece que ao menos alguns descontentes resolveram entrar no jogo do adversário. Não obstante as críticas, os antifascistas futebolistas, ao enfrentar face a face seus desafetos ideológicos, num cenário de conflito ideal para Bolsonaro dirigir seus petardos autoritários e liberticidas, fazem o que muitos militantes da esquerda organizada em partidos políticos ou movimentos sociais gostariam de fazer e não fazem, seja em respeito à coerência, por defenderem a iniciativa civilizatória do isolamento, de acordo com as orientações de entidades médicas, científicas e governos estaduais, ou porque estão simplesmente acomodados por décadas de imobilismo, após o atrelamento de uma estirpe sindical e partidária ao aparato estatal de um Welfare State mal sucedido, que burocratizou as instâncias de mobilização. De qualquer forma, a contraposição das camisas de times de futebol às da seleção nacional, num duelo de corpos que traduz a divisão profunda entre dois Brazis, talvez signifique um novo capítulo da saga de uma pandemia num país, que, se não sucumbir ao vírus, pode culminar na tragédia de uma nação esfacelada ou destruída pela intolerância e ausência de conciliação nacional.

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