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Sobre qual seria a “Consciência Negra”

Sobre qual seria a “Consciência Negra”

Por Rudá Ricci

Fiquei pensando sobre o que significaria a “consciência negra” que é celebrado em novembro em nosso país. O dia 20 de novembro é relacionada com a morte de Zumbi dos Palmares. Mas, se a consciência negra passa pela história de luta pela liberdade e igualdade dos negros brasileiros, por que não sugerir o dia da luta pela liberdade e igualdade dos negros? O que teria gerado a eleição do conceito de consciência?

Como sou freireano, vou refletir um pouco mais sobre como Paulo Freire analisou este conceito.

A consciência, para Freire, seria uma objetivação da sua realidade. O que significa que antes da consciência, estaríamos imersos na realidade, mas não conseguimos concretizá-la, permanecendo no que o autor sugere ser o limite do “horizonte biológico” da vida humana, se restringindo à sobrevivência. Contudo, sendo humanos, a consciência humana permanece sempre aberta, podendo ampliar sempre a percepção do mundo e do que vivo. Em Lev Vygotsky, esta possibilidade ilimitada do desenvolvimento da inteligência humana também está presente, podendo ser ampliada por estímulos adequados. Em Paulo Freire, o exercício proposto pelo educador seria o de provocar um distanciamento do educando de sua vida e suas escolhas, o que denomina de ad-mirar (se olhar de fora).

Freire denomina de “consciência transitiva ingênua” quando o indivíduo percebe contradições sociais, mas ainda está preso a um conformismo original, quase sempre atrelado a um forte misticismo. A vida seria explicada pelas relações concretas, mas por determinações superiores e mágicas. Quem analisa não se arrisca em fazer vínculos entre acontecimentos, em investigar causas para a condição concreta de vida. Trata-se de uma consciência acrítica, pela interpretação simplória e simplista do mundo, quase sempre sugerindo que o passado sempre foi melhor que o presente.

Como se chegaria à consciência crítica?

Pela construção da autonomia (eu mesmo me governo a partir de minha leitura sobre meu papel no mundo). O pensamento autônomo é necessariamente livre (não subordinado a outros e não passivo) e engajado no mundo. Mas, se é crítica, não é doutrinário porque aberto ao mundo e sua dinâmica, aberto à outras leituras. O pensamento crítico seria um posicionamento frente ao mundo e frente às relações sociais e políticas que se apresentam na vida de cada indivíduo. Este processo não se dá em função de um ponto de chegada (a consciência adquirida que faz o indivíduo livre e engajado), mas como um movimento contínuo de humanização (lembram-se da frase de Hannah Arendt que sugere que não nascemos humanos, mas nos tornamos membros da experiência humana pelo conhecimento reflexivo?). Freire acreditava que este processo é marcado pela curiosidade – portanto, pela dúvida – e pela criatividade, situando o pensamento no campo das possibilidades – não das certezas -, num certo “inédito-viável” que se apresenta a quem reflete sobre o mundo e sua condição.

Lembremos que esta noção construída por Freire tem relação com a descolonização da cultura e dos valores locais e nacionais, desgarrado da lógica europeia e norte-americana. Um processo em que os brasileiros pensariam o Brasil e o mundo a partir de si mesmos. Daí sua relação com a educação.

A consciência de si e do mundo seria, assim, uma reflexão que problematiza o mundo, que não o naturaliza, que o pensa em movimento, não como uma verdade estática. Aqui reside uma complexidade teórica: embora este processo de emancipação (conscientização da dinâmica social e sua inserção nesta dinâmica) seja construído individualmente, ela se dá a partir de relações sociais. Em outras palavras, a emancipação intelectual individual se relaciona com a emancipação social: uma depende da outra, como ressalta Walter Kohan em seu livro “Paulo Freire: mais do que nunca”. Diz Paulo Freire: “o desenvolvimento crítico desses alunos é fundamental para a transformação radical da sociedade. Sua curiosidade, sua percepção crítica da realidade são fundamentais para a transformação social, mas não são, por si sós, suficientes (em “Medo e Ousadia”, Paz e Terra, 1986).

Se é assim, quem educa não sabe onde a tomada de consciência do educando vai alcançar. Sendo assim, não há como tutelar este processo. Trata-se de estímulos à reflexão, não a transmissão ou formatação da consciência do outro.

Então, pensemos, o que seria, na prática, um dia da consciência negra? Qual seria a consciência esperada? Ou seria um dia para demarcar ações reflexivas sobre a condição dos negros em nosso país?

Não se trata de uma questão secundária. Nos EUA e aqui, há uma nem sempre nítida disputa de projetos envolvendo esta consciência do que se é e o que se quer ser como negro. Vou citar duas vertentes do discurso antirracista que são opostos e que travam uma luta surda.

De um lado, temos a defesa da consciência de que o racismo brasileiro tem raízes plantadas com o escravagismo e que perduram até hoje a partir de uma forma de pensar estamental, aquela em que as pessoas nascem em grupos de privilégios definidos a priori: alguns teriam seus templos de consumo (shoppings centers, cinemas, restaurantes, praias privativas, viagens aéreas) e outros, pobres, estariam limitados a guetos territoriais e parcas oportunidades de ascensão social quase sempre restritas às artes populares e ao esporte. Viveríamos, então, numa sociedade de classes emoldurada numa cultura de castas. A marca é manter a pornográfica desigualdade social brasileira (somos o 7º país do mundo em desigualdade social embora tenhamos o 8º maior PIB mundial) que envolve uma maioria negra, mas que também arrasta brancos pobres: entre os 10% mais pobres, 75,2% são negros e 23,7%, brancos. Trata-se de uma questão de exploração de classe com forte conotação racista.

Há uma outra defesa da consciência negra distinta da anterior em que se identifica a origem do racismo brasileiro na existência dos brancos. Nesta vertente, os brancos pobres e explorados são ignorados. O malabarismo conceitual caminha de tal maneira que uma de suas vertentes sugere a inclusão no mercado de alto consumo. O aparente radicalismo seria um pedido tímido para que os negros também passem a ser incluídos no mundo capitalista. Nesta vertente, a palavra exploração que fundamenta a vertente anterior é substituída por opressão. Exploração indica uma relação funcional e sistêmica, já o conceito de opressão se relaciona a duas partes em conflito, sendo uma delas dominada por outra. A relação de opressão nem sempre é apresentada como fruto de um sistema ou de uma organização social que vai além das pessoas – como ocorre na noção de exploração – e, por este motivo, leva rapidamente à fulanização: é a pessoa que seria culpada pelo racismo. Se as pessoas são culpadas, então, é preciso identificar erros pessoais que indicariam o racismo: um rol que invariavelmente se concentra em aspectos estéticos de fala e vestimenta. E, daí, surge um argumento de autoridade biológica: o lugar de fala. Como afirmei, há uma derivação desta vertente, cada vez mais comum, que procura eliminar o que não teria “lugar de fala” da vivência opressiva e criar uma “reserva de mercado” aos que possuem o “lugar de fala”. Reservas em pesquisas acadêmicas (homem não deveria pesquisar sobre a questão feminina ou escrever sobre feminismo, brancos não poderiam pesquisar sobre racismo ou lutas de negros, questões envolvendo LGBT não poderiam ser discutidas por heterossexuais), reservas de liderança social e assim por diante.

Então, o termo “consciência” para nomear o dia 20 de novembro não se apresenta como um consenso fácil sobre ao que se refere.
Faço esta provocação porque é comum propormos algo e acabarmos fazendo o oposto. Nosso país possui uma cultura imediatista, do fazer imediato, o que contribui para tal confusão.

Damos de barato que dia 20 de novembro seria uma homenagem. Mas, afinal, homenagem a quem ou a quê? À consciência negra? Qual consciência? Se não refletimos, acabamos caindo na contradição profunda como a de alguns que acreditam que empreendedorismo ou meritocracia são direitos que nos libertarão. Muito antes que isso, tais proposições apenas domesticam os que são explorados desde muito.

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