corona crise

Selecione a página

Unidade Entrevista Rafael Laboissière – Eleições municipais francesas de 2020

Eleições municipais francesas de 2020: o que está por trás da chamada “onda verde”?

por Rafael Laboissière

(este artigo é um resumo do artigo de Pauline Graulle, publicado no Mediapart em 2 de julho de 2020 https://www.mediapart.fr/journal/france/020720/municipales-ce-qui-se-cache-sous-la-pretendue- vague-verte)
Nas eleições municipais francesas de março/junho de 2020, os ecologistas ganharam em oito das quarenta maiores cidades de França. Será que este sucesso sem precedentes abre uma nova era política? A resposta em seis perguntas.
O partido Europe Ecologie Les Verts (EELV) governava até agora uma única cidade com mais de 100.000 habitantes na França, que é Grenoble. A partir de hoje mais seis outras grandes cidades entram na lista: Estrasburgo, Bordeaux, Annecy, Besançon, Lyon, Tours e Marselha. Os verdes quase ganharam em Toulouse e foram fundamentais nas vitórias do Partido Socialista (PS) em Paris e em Lille.
Muitos consideram o resultado destas eleições “histórico”. Entretanto, este resultado é menos inequívoco do que parece e algumas perguntas merecem ser feitas.

1. Podemos realmente falar de uma “onda”?
A metáfora marítima de “onda” tende a ser interpretada como um “tsunami”. Certamente, os ecologistas obtiveram um grande sucesso. No entanto, não se deve esquecer que este sucesso vem acompanhado de um colapso da participação. A abstenção é tamanha (60%) que se deve reconhecer que, na realidade, nenhuma oferta política convenceu a maioria de eleitores. Nem a direita, nem a esquerda, nem os Verdes, portanto. Na França, a abstenção favoreceu a direita, que se mantém nas cidades pequenas e médias. Do total de 36.000 municípios, a direita e o centro ainda governam mais cidades do que a esquerda. O emablo ambientalista é real, mas as velhas forças políticas ainda resistem.
Os Verdes nunca esconderam o fato de que querem substituir, a longo prazo, uma social-democracia moribunda, mas a sua “onda” continua a bater num “dique”: o voto socialista. O PS manteve as prefeituras de Lille, Paris e Dijon, além de ganhar Nancy, Montpellier, Saint-Denis e Saint-Ouen. Isto pode até parecer um grande triunfo, mas o voto socialista continua no mesmo nível de 2014.
Ao invés de onda, poderíamos falar de ancoragem territorial. O voto ambientalista atual se concentra na fronteira com a Alemanha (Estrasburgo, Besançon) e na região de Rhône-Alpes (Annecy, Grenoble, Lyon), as terras históricas da ecologia.

2. A onda é apenas “verde”?
Foi uma vitória dos ecologistas ou da esquerda em geral? As listas vencedoras misturaram ecologistas, comunistas, socialistas, rebeldes e cidadãos. Este é emblematicamente o caso em Marselha, onde Michèle Rubirola recebeu o apoio, já no 1o turno, do socialista Benoît Payan, da Insubmissa (France Insoumise, FI, é o partido de Jean-Luc Mélenchon) Sophie Camard e pelos comunistas locais.
Na verdade, o voto de esquerda permanece mais ou menos equivalente ao das eleições de 2014 nas cidades com mais de 30.000 habitantes. O voto ecologista compensa a queda do voto comunista, em pleno declínio.
No fim das contas, a vitória dos Verdes foi talvez ainda mais cultural do que eleitoral. O PS só conseguiu ganhar porque incluiu questões ambientais no seu program. Fato marquante, nas cédulas de voto em Paris, onde a socialista Anne Hidalgo ganhou, o logo do EELV era maior do que o logo do PS, e a cor verde ocupou todo o espaço. Martine Aubry, outra socialista, que ganhou em Lille, afirma que ouviu a clamor dos franceses quanto a necessidade da transição ecológica.

3. O sucesso dos ecologistas está confinado às metrópoles?
Alguém da classe média ou alta, da metrópole, jovem e diplomado, eis o estereótipo do eleitor ecologista. É difícil ainda afirmar, por falta de resultados detalhados, se a onda verde também atingiu cidades mais pequenas, mais rurais e mais populares. Nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, em 2019, o EELV obteve 11% dos votos em cidades com menos de mil habitantes, e 18% em cidades com mais de 100.000. A diferença existe, mas não é enorme.
No entanto, deve-se observar que nos subúrbios de Paris, os Verdes não progrediram. Nesta região, os confrontos clássicos continuam sendo entre a Partido Comunista Francês (PCF) e o PS, ou entre a esquerda e a direita tradicionais.

4. Os vereadores/prefeitos recém-eleitos são realmente novos?
Dos sete novos prefeitos, três dos quais são mulheres, nenhum era anteriormente conhecido a nível nacional. São militantes de rua, antes de mais nada. O EELV perdeu muitos dos seus dirigentes para a República em Marcha (LREM, partido do presidente Emmanuel Macron) nos últimos anos. Estes novos prefeitos estão investindo numa estratégia de apaziguamento e de funcionamento coletivo, mesmo que sejam radicais nas suas propostas. Estas propostas anti-polarização respondem às aspirações dos cidadãos de acabar com a brutalização dos debates.
Estes novos prefeitos vêm de categorias sociais superiores e têm pouca experiência de política profissional: em Bordeaux, Pierre Hurmic é advogado; em Estrasburgo, Jeanne Barseghian é formada em direito ambiental; em Marselha, Michèle Rubirola é médica. Quanto a Anne Vignot (Besançon), Emmanuel Denis (Tours) e Éric Piolle (Grenoble), são todos engenheiros. A maioria deles passou parte da sua carreira no trabalho humanitário ou na economia social e solidária. Léonore Moncond’huy (Poitiers), é formada em relações internacionais e é uma ex-escoteira. A exceção é Bruno Bernard, o futuro presidente da metrópole de Lyon, que era socialista, mas até 1996.
Pode-se dizer que o surgimento desta nova geração é um sinal do regresso a uma espécie de ecologia original, originada mais num meio “católico de esquerda” do que no movimento pós-1968.

5. O EELV está se tornando o principal partido da esquerda?
Dentro do PS, já se defende a estratégia de apoiar um candidato EELV na eleições presidenciais de 2020. Entratanto, a questão da liderança da esquerda está longe de ser resolvida. Acredita-se que os Verdes não estão preparados para enfrentar as questões económicas e sociais ao nível nacional, além das questões de segurança. Há também o perigo de um possível esfacelamento do poder e da falta de união dos movimentos de esquerda.
O PS está dividido entre os partidários de um bloco “ecológico e social” e os partidários do “socialismo puro”. Já os ecologistas oscilam entre a autonomia estratégica da ecologia política e uma linha assumida de união da esquerda.

6. A vitória Verde deslocará o centro de gravidade da esquerda para o centro?
Não há como julgar antecipadamente a forma como os novos prefeitos irão governar as cidades. Enquanto todas elas tinham um programa semelhante (vegetalização, renovação térmica de habitações, suspenção de grandes projetos poluentes ou comerciais, democratização da política local, etc) as campanhas oscilavam entre a esquerda e o centro, se tornando mais distantes das preocupações dos setores populares.
A abstenção maciça nos bairros da classe trabalhadora significa que os novos eleitos Verdes “esquecerão” de responder às exigências sociais durante o seu mandato? Sem dúvida, e os candidatos da esquerda radical (FI ou PCF) eleitos nas chapas de coalizão, não os deixarão esquecer.
O grande desafio para os Verdes será o enfrentamento da crise económica que atingirá os territórios periféricos e abandonados, que irá além das ciclovias e dos alimentos orgânicos nas cantinas.
Há também a porosidade entre o centro e a ecologia. Muitos dos eleitores decepcionados do LREM, que em várias cidades se uniu com a direita, voltaram-se para o voto ambientalista.
Na realidade, os Verdes estão mais à esquerda do que o PS, como demonstraram durante o mandato de cinco anos de François Holanda, com a demissão de Cécile Duflot do cargo de ministra quando Manuel Valls, de tendências direitistas, se tornou primeiro ministro. A ecologia política traz consigo, de uma forma substancial, a regulação da economia.

Apoiase

Apoie nosso projeto

Acreditamos muito na colaboração como forma de mudança da sociedade. Ajude doando alguns reais por mês, qualquer valor já ajuda e demonstra que você acredita na ideia!

Contribuir agora

Unidade entrevista: Daniela Arbex

CUFA e DATAFAVELA

Como o coronavírus está afetando a vida nas favelas
Relatório para Abril de 2020

Relatório CEPAL

Vídeos recentes

Carregando...

DOSSIÊ: ONDE ESTÁ A ESQUERDA NESTA CRISE?

Atravessar a quarentena

Atravessar a quarentena II